Morre Nélida Piñon, primeira Presidente da ABL

A escritora Nélida Piñon, considerada uma das maiores autoras da literatura brasileira contemporânea e a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras (ABL), faleceu na quarta-feira, 12 de dezembro de 2022, aos 85 anos, em sua casa no Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada oficialmente, mas a assessoria da família confirmou o falecimento.

Nélida Piñon nasceu em 3 de maio de 1937, no bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, filha de imigrantes galegos. A conexão com a Galícia marcou profundamente sua obra, que transita entre a memória familiar, a identidade cultural lusófonoa e a experiência da diáspora. Desde cedo, mostrou vocação para a literatura e o jornalismo, áreas que trilhou com rigor e sensibilidade ao longo de mais de seis décadas.

Carreira Literária e Principais Obras

A estreia de Nélida Piñon na literatura aconteceu em 1963, com o romance Guia-Mapa de Gabriel Arcanjo, uma obra experimental que já demonstrava sua predileção por narrativas fragmentadas e vozes múltiplas. Contudo, foi com A Cruz de Palavra (1969) que ela alcançou reconhecimento definitivo, conquistando o Prêmio Jabuti de melhor romance. O livro explora a relação entre uma mãe e uma filha, mesclando realismo e imagismo de forma poética e envolvente.

Outras obras fundamentais de sua carreira incluem:

  • Paula R (1967) — romance psicológico que mergulha na mente de uma jovem em crise existencial
  • Memórias de Emília (1971) — crônicas autobiográficas que entrelaçam memória pessoal e coletiva
  • Upa Vice-Ra (1976) — uma reinterpretação do mito de D. Quixote ambientado no Brasil
  • Don Juan Mágico (1982) — romance ambientado em Cuba que investiga poder, política e desejo
  • Tebaida (1988) — romance histórico que reconstrói a vida de D. Pedro I e Leopoldina
  • Cabeça de Coelho (1995) — coleção de contos que explora a masculinidade e a fragilidade humana
  • O Anjo Envelhecido (2000) — romance que combina memória e fantasia na tradição da família galega
  • Entre o Silêncio e a Sombra (2010) — memórias em forma de prosa poética

Sua obra traduzida em mais de vinte idiomas, Nélida Piñon é reconhecida internacionalmente como uma voz essencial da literatura em língua portuguesa. Sua capacidade de fundir o intimismo com a dimensão épica, a memória familiar com a História, conferiu à sua escrita uma universalidade rara.

A Primeira Mulher à Frente da ABL

Em 1996, Nélida Piñon tornou-se a primeira mulher eleita para presidir a Academia Brasileira de Letras, uma instituição fundada em 1897 e tradicionalmente ocupada por homens. Sua eleição marcou um momento simbólico na história cultural brasileira, representando a quebra de um paradigma que durava quase um século.

À frente da ABL, Nélida assumiu a presidência com energia renovada, promovendo debates sobre o papel da literatura na sociedade contemporânea e defendendo a diversidade cultural do país. Sua gestão valorizou a abertura institucional para vozes que historicamente estiveram à margem do cânone literário brasileiro.

"A literatura não é um luxo, é uma necessidade. É pela palavra que construímos pontes entre os povos e entre as gerações."

O período de sua presidência, de 1996 a 1997, foi marcado por um renovado interesse público pela ABL e pelas discussões sobre a política cultural nacional.

Reconhecimentos e Prêmios

Ao longo de sua carreira, Nélida Piñon acumulou diversos prêmios e honrarias que atestam a relevância de sua obra:

  • Prêmio Jabuti (1969) — por A Cruz de Palavra
  • Prêmio PEN Clube (1984) — pela totalidade de sua obra
  • Prêmio Camões (2005) — o maior prêmio da língua portuguesa, concedido a autores de todas as nacionalidades lusófonas
  • Ordem do Mérito Cultural — concedida pelo Governo Federal
  • Doutoramento Honoris Causa por diversas universidades, incluindo a Universidade de Coimbra
  • Membro correspondente da Real Academia Española e da Academia das Ciências de Lisboa

O Prêmio Camões, recebido em 2005, consolidou seu status como uma das escritoras mais importantes do mundo lusófono. A homenagem reconheceu não apenas sua obra literária, mas também seu papel como mediadora cultural entre Brasil, Portugal e a diáspora galega.

Legado e Impacto no Jornalismo Cultural

Além de romancista, Nélida Piñon exerceu o jornalismo com maestria. Colunista de veículos como o Jornal do Brasil e a Folha de S.Paulo, seus textos abordavam temas variados — da política cultural à crítica literária — com a mesma precisão e sensibilidade de sua prosa de ficção.

Seu papel como professora também foi significativo. Lecionou em universidades brasileiras e estrangeiras, incluindo a Universidade da Califórnia em Berkeley e a Universidade de Michigan, levando a literatura brasileira a novos públicos e formando gerações de escritores e pesquisadores.

Através de seu trabalho no jornalismo cultural, Nélida ajudou a construir uma ponte entre o público leitor e a produção literária contemporânea, democratizando o acesso à informação sobre livros e autores de língua portuguesa.

Reações ao Falecimento

Noticiado na quarta-feira, o falecimento de Nélida Piñon gerou onda de pesar em todo o Brasil e no exterior. Personalidades das letras, da política e da cultura prestaram homenagens à escritora.

A Academia Brasileira de Letras emitiu nota oficial lamentando a perda de sua ex-presidente, classificando-a como "uma das vozes mais expressiveis e ousadas da literatura brasileira de todos os tempos". O Governador do Estado do Rio de Janeiro decretou luto oficial de três dias.

Escritores como Chico Buarque, Raduan Nassar e Nuno Ramos destacaram a generosidade intelectual de Nélida, sua coragem para enfrentar temas tabus e sua capacidade de renovar constantemente a linguagem narrativa.

No cenário internacional, a notícia repercutiu em países como Portugal, Espanha, França e Estados Unidos, onde sua obra é amplamente estudada e admirada.

A Relação com o Sul da Bahia

Apesar de ter nascido e vivido no Rio de Janeiro, Nélida Piñon manteve ao longo da vida uma conexão afetiva com o Brasil profundo. Seus romances são marcados por uma sensibilidade regional que transcende fronteiras, abordando temas universais a partir de raízes culturais específicas.

A literatura de Nélida Piñon ressoa especialmente em comunidades onde a oralidade, a memória familiar e a relação com a terra são pilares da identidade, como acontece na região cacaueira do sul da Bahia. Sua obra O Anjo Envelhecido, por exemplo, evoca a tradição oral galega de forma semelhante àquela praticada nas comunidades do recôncavo e do litoral sul-baiano.

O Cacau News, portal de notícias regional que cobre Itabuna, Ilhéus e municípios vizinhos, registra a homenagem a esta grande figura da literatura brasileira, reforçando a relevância da cultura e do jornalismo de qualidade para as comunidades que servimos.

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